Folha de São Paulo - 03/08/91

Marcelo Coelho - 03/08/91

É um belo livro, esse Estorvo de Chico Buarque. Como o título sugere, está longe de ser uma leitura fácil. Muito bem escrito, palavra por palavra, exige uma atenção constante do leitor; tem umas cento e cinqüenta páginas que parecem mais e, diga-se a verdade, corre o risco de aborrecer os desprevenidos.

Começo pelos elogios, falarei em seguida dos defeitos, concluirei pelos problemas que o livro indica.

O que impressiona, antes de tudo, é a extrema precisão da linguagem. Não há descrição que não seja exata, perfeita, acabada em si mesma; para isto não basta "escrever bem"; é preciso uma acuidade intelectual, um poder de observação, que Chico Buarque revela ter à maravilha.

Alguns exemplos. De noite, no sítio, o narrador ouve música: esta ocupa todos os espaços, "com a substância que a música no escuro tem". Ou está na praia, e vê o mar "vomitando o mar". Uma vaca pisca devagarinho: "sua pálpebra de quando em quando lambe o olho". Esse uso impróprio e feliz dos verbos ("vomita", "lambe"), salvo engano, é uma figura de linguagem que atende pelo nome de catacrese, e aparece em quase todos os pontos do livro, com efeitos excelentes.

Outra coisa especialmente bem-sucedida é o emprego de termos coloquiais. De certo modo, a coloquialidade é algo a ser reinventado de tempos em tempos; exige a atenção para novas formas de falar, para palavras que, inconscientemente, o autor expulsa de seu vocabulário quando escreve. Chico Buarque não. Assim, uma menina está ouvindo seu walkman e, de repente, diz o narrador, "aperta o stop". Veja-se a exatidão desta cena: "um grupo de moças que saem da dança se abanando, soprando o decote de suas blusas pretas". Neste caso, é tanto a visão límpida das coisas - o realismo, afinal - quanto a precisão do vocabulário que nos revela a presença de um escritor que conhece seu ofício.

Passemos aos defeitos. Alcion Leite Neto e Roberto Ventura, na "Ilustrada" da outra semana, detectaram-nos com agudez. Ventura diz que "falta algo no enredo e fica uma sensação de vazio no final da leitura". Leite Neto aponta um enredo policial "artificioso". É verdade. A história, o "romance" não decolam, e Estorvo vale mais pelo que descreve do que pelo que narra.

Mas aqui entramos nos problemas que o livro levanta. Antes, é preciso entender melhor o que ele significa. E a análise exigirá alguma paciência do leitor.

Ajuda pensar nas velhas músicas de Chico Buarque. Em meados dos anos 60 - depois do golpe de 64, desse desastre para a civilização brasileira -, Chico Buarque, vindo de uma elite de quatro costados, rapaz finíssimo, surge como compositor popular. Mais do que qualquer outro, representa uma utopia que o golpe acabava de destruir: o da identidade "cultural" entre uma classe dominante esclarecida, honesta, bem-educada, e um "povo" rico de suas próprias sutilezas e tradições, fiel a si mesmo. Chico Buarque reatou com Noel Rosa, com o samba; também com a marcha-rancho, a modinha, a valsa brasileira; com o Brasil, enfim, no que tem ou no que tinha de mais delicado, de mais simples, de mais digno e idealizadamente "popular".

O Brasil de A banda, de Gente humilde, de Valsinha, de Rita, era mais o Brasil do "subúrbio" do que o Brasil da "periferia". Estranhamente, encontram-se nas músicas de Chico Buarque palavras como "amada", "felicidade", "moça"... Nada de "moderno", portanto.

Trata-se de referências a um mundo "popular", antes de o "popular" ter entrado em delírio, na demência irreconhecível que é a mistura das seitas protestantes com o videogame, dos skinheads com Leandro e Leonardo, do samba com Tartarugas-Ninja, da esfiha com relógios Cartier falsificados. O "popular" das primeiras músicas de Chico Buarque era do arroz com feijão, da pinga, do barraco cuja porta-era-sem-trinco, do realejo, do tamborim e do violão. Este era um mundo reconhecível e, a posteriori, respeitável pela elite.

Tomem-se, nas músicas de Chico Buarque, duas traições e duas passagens. Duas traições: a primeira, de Quem te viu, quem te vê, é do tipo tradicional; a moça era uma cabrocha, que dançava na pista, e hoje entregou-se ao "café-society", organiza chás dançantes. Era uma traição de "status", numa sociedade que se dividia entre "finos" e "populares". A segunda traição é mais irrecuperável, mais histórica, mais fatal: em Essa moça tá diferente, ela quer ser "moderna", "tá decidida a se supermodernizar", esqueceu-se das rosas e dos violões. Desta segunda traição - o "moderno" suplantando o "popular" - desconfio que Chico Buarque nunca se recuperou.

Duas passagens: a de A banda, que passa e transfigura o cotidiano, conferindo uma unanimidade folclórica e pura para cada pessoa que estava perdida nela mesma. E a de Vai passar, música que se contorce de tensão e alegria esgazeada, referindo-se sarcasticamente aos "sambas imortais"; brutal, quase vingativa quando fala de "barões famintos, napoleões retintos e pigmeus do bulevar". Nesse momento, Chico Buarque se dirige explicitamente à classe média de esquerda; o "povo" propriamente dito está enlouquecido.

Se, nos países socialistas, a esquerda traiu o povo, o desespero com relação ao Brasil é inverso. De certo modo, o povo traiu a esquerda; o desespero, o rancor de Chico Buarque a partir dos anos 70, a referência não mais utópica, mas irônica, de suas canções depois dessa época significam, acima de tudo, a derrota que se abateu sobre um país que não se reconhece mais a si mesmo.

Voltando a Estorvo. O narrador é de boa família, sua irmã mora num condomínio de milionários cercado de seguranças. Mas ele não tem eira nem beira: a boêmia da batucada e da cerveja cede lugar, aqui, a uma solidão completa. O narrador simplesmente não sabe para onde ir, o sítio de sua família esta ocupado por traficantes, enquanto o "povo" se entrega de corpo e alma à criminalidade, à estupidez ou ao silêncio. A aliança entre a elite e a classe baixa, pelo samba e pela utopia, se mostra impossível. O mundo do narrador é estranho, deformado - os raros nomes próprios que aparecem no livro, como Azéa, Osbênio, Clauir, são caricaturas tensas da brasilidade popular.

Chico Buarque trata de um mundo de traficantes e cartões de crédito, de cercas eletrificadas, de seguranças e relógios digitais, onde a defesa exacerbada da propriedade individual terminou afastando de si outra característica buguesa [sic], a da liberdade da pessoa enclausurada, esta, com medo de assaltos e seqüestros. Um "boêmio", como é o narrador, não encontra lugar nessa sociedade; vive um exílio que é aqui mesmo. Uma fuga interminável, estranha, irreal, compõe o romance.

Mas é um romance? Dizem que não. Seria diferente, por exemplo, se o livro contasse a evolução da personagem principal até o ponto lamentável em que o encontramos no começo da narrativa. Não há uma "transformação" desse tipo. O tempo da narração é sempre o presente - "abro a porta", "vejo o fulano", etc., o que aliás dá um tom cansativo à coisa.

Gore Vidal, quando esteve no Brasil, espantou-se com a quantidade de temas à disposição de eventuais romancistas. Para nós, brasileiros, o problema é diferente. É falsa a impressão de que este país seja tão rico de fatos, de ironias e reviravoltas, que todos os seus imprevistos se unifiquem num tecido comum - cabendo, portanto, a missão de escrever um romance. Não conseguimos isso, porque tudo é insignificante - e Machado de Assis, via Roberto Schwarz, tematiza isso - e simplesmente não se integra numa experiência comum.

Donde a impressão de que o tempo presente na narrativa de Estorvo parece contrastar com a vontade de escrever um romance; o pretérito e o condicional se recusam a aparecer neste livro; ou melhor, o que se recusa a aparecer são as esperanças que o passado parecia conter dentro de si.

Eram marcantes, nas canções de Chico Buarque, o uso revolucionário da frase feita - que, pela mudança de sentido repentina, parecia trazer a esperança de uma transfiguração mágica do cotidiano social - e o uso, mais sutil e difícil de definir, de uma "intransitividade" dos substantivos (o substantivo como que solto na frase, à procura de um complemento inexistente: exemplo, "tem mais samba no encontro que na espera": espera do quê? encontro com quem?). Em vez disso, temos aqui a catacrese e o coloquialismo. De um lado, palavras são arrancadas de seu sentido original - a vaca lambe o olho - para preencher o espaço que deveria estar ocupado por alguma outra palavra, inexistente em nosso vocabulário. De outro lado, usam-se palavras que foram recém-inventadas. Como se a realidade e o "popular", afinal, tivessem fugido de nós, cabendo-nos apenas registrar sem esperanças o cotidiano e dar-lhe as palavras de que não dispomos, organizando-as numa sintaxe fechada, sem perspectiva, sem "vazios".

Difícil escrever um romance numa situação política e psicológica em que cada coisa parece se esgotar em si mesma, não aponta para nada. As cenas do livro também se esgotam, param nelas mesmas; a vantagem é que há um excelente escritor por trás de tudo.