Hugo Sukman - Inverno de 2007

  
CHICO BUARQUE lança em agosto DVD e CD ‘Carioca ao Vivo’; DVD é o primeiro com registro integral de um show do artista.

Show, que trouxe Chico de volta aos palcos depois de sete anos, foi visto por 185 mil pessoas em turnê por 12 cidades brasileiras e três européias.

CD chega às lojas na primeira semana de agosto; o DVD, 15 dias depois.
 
Mario Reis, o primeiro cantor moderno do Brasil, volta e meia parava de cantar, como se largasse a carreira de cantor. Mas volta e meia voltava. Numa dessas voltas, em 1939, para o show beneficente ‘Joujoux e balangadans’, no Theatro Municipal, Lamartine Babo compôs para ele o auto-explicativo samba ‘Voltei a cantar’ (“Porque senti saudades / Do tempo em que eu andava na cidade / Com sustenidos e bemóis / Desenhados na minha voz”). Quando parava de cantar, Mario dizia que era para trabalhar. Mentira. Ia era viver, para voltar cantando cada vez melhor, de forma ainda mais rigorosa.
 
Chico Buarque abre o seu show ‘Carioca’ justamente com ‘Voltei a cantar’. Como Mario Reis - de quem era amigo e para quem compôs um samba em 1971, ‘Bolsa de amores’, que seria censurado - Chico também volta e meia pára de cantar. Diz que vai trabalhar. Mentira. Ou melhor, meia verdade: ele pára de cantar para escrever livros, o que não deixa de ser uma forma intensa de viver. E de voltar um cantor revigorado, melhor, mais esperto, mais rigoroso.
 
É esse Chico voltando a cantar mais uma vez, amadurecido por muitas paradas em função de vivências, literárias ou não, que é flagrado no DVD ‘Carioca ao vivo’, o primeiro que contém o registro integral de um show seu de carreira.
 
E que registro! As câmeras, comandadas pelo diretor André Horta, não por acaso originalmente um diretor de fotografia (ou seja, alguém muito ligado à questão dos enquadramentos), flagram sem firulas desnecessárias o que de fato importa: a interação de Chico, seu rosto e seu violão, com os músicos liderados pelo maestro e violonista Luiz Cláudio Ramos, e destes com o público. O que quer se registrar aqui é exclusivamente a performance ao vivo de um artista. Toda a dramaturgia está contida na música de Chico, e no rigoroso roteiro calcado em 33 canções pinçadas dos mais variados momentos de sua carreira.
 
Ao mesmo tempo que o DVD, a Biscoito Fino lança um CD duplo de ‘Carioca ao vivo’. Mas na verdade são duas performances diferentes do artista: o DVD foi totalmente gravado em outubro de 2006, no Tom Brasil de São Paulo. Já o CD é o resultado do mesmo show misturado a registro feito mais tarde, no Canecão do Rio, em fevereiro de 2007. CD e DVD dialogam também na capa: a foto de Chico pegando o violão (voltando a cantar) que ilustra o DVD é a base da ilustração da capa do CD, no complexo trabalho gráfico feito pela dupla Raul Loureiro e Claudia Warrack, que também foram os responsáveis pela arte gráfica do CD ‘Carioca’, o de estúdio.
 
A tal “interação com o público” é fundamental no caso dos shows de Chico. Seus discos de estúdio com músicas novas, como foi o caso de ‘Carioca’, lançado em maio de 2006 pela Biscoito Fino e que já vendeu mais de cem mil cópias, provocam o choque do novo, propõem uma ruptura com o passado, convidam o ouvinte a um passeio na floresta ‘oscura’ da criação. Os shows, por sua vez, ainda que ele não faça qualquer concessão ao simples desfilar de sucessos, são momentos de conciliação entre o público e o artista. Nos discos, Chico pede engajamento do ouvinte. Nos shows, ele devolve generosamente passeando pelo seu repertório tão querido do público.
 
O próprio Chico assina o roteiro do show ‘Carioca’, uma costura com cuidados dramatúrgicos insuspeitados, não fosse costurado pelo autor de ‘A Ópera do Malandro’, ‘Calabar’, ‘Gota d´água’.
 
- É quase uma historinha, uma dramaturgia. Minha cabeça tem isso, uma coisa puxa a outra. ‘Mil perdões’ leva para ‘A história de Lily Braun’, que por sua vez chama ‘A bela e a fera’ - explicou Chico durante a turnê do show.
 
Vê-se nesse exemplo dado pelo próprio artista a lógica dramatúrgica de ‘Carioca’: a canção sobre a mulher rodrigueana (foi feita para filme ‘Perdoa-me por me traíres’, de Braz Chediak, sobre a peça de Nelson Rodrigues) que se liberta traindo o marido e o perdoa por ter sido obrigada a fazer isso, leva para a canção da mulher livre e boêmia que vê seu sonho romântico se esfumaçar num casamento burguês, e que culmina com a declaração de amor desbragada do homem (a fera) para sua amada (a bela).
 
As relações homem-mulher, uma das especialidades do cancioneiro de Chico, da hipocrisia de ‘Mil perdões’ ao amor apaixonado de ‘A bela e a fera’ parecem contar uma história. Que continua em ‘Ela é dançarina’, a história do casal que nunca se encontra. E segue na mulher idealizada de ‘As atrizes’. Que de idealizada se transforma na musa concreta na canção seguinte, ‘Ela faz cinema’, uma musa encantadora mas cheia de truques e fingimentos: “Ela é assim / Nunca será de ninguém / Porém eu não sei viver sem”.
 
E o show segue nos desencontros amorosos adultos de ‘Eu te amo’, nos desencontros adolescentes de ‘Leve’ (da seqüência incrível de rimas tão buarqueanas em versos como “Não se atire do terraço, não arranque minha cabeça / Da sua cortiça / Não beba muita cachaça, não se esqueça depressa de mim, sim”), nos desencontros de um velho em ‘Bolero blues’ (“Quando eu ainda estava moço / Algum pressentimento / Me trazia volta e meia / Por aqui / Talvez à espera da garota / Que naquele tempo / Andava longe, muito longe / De existir”).
 
Como o CD ‘Carioca ao vivo’, o DVD ‘Carioca ao vivo’ também é um passeio dramatúrgico de Chico sobre, mais do que sua obra, o seu imaginário musical e poético. Remete a um Rio de Janeiro muito particular, da infância, da época em que a “garota (de Ipanema?) andava longe, muito longe de existir”. Pois não é que da seqüência destinada à musa e às relações entre homens e mulheres, Chico passa a tratar da sua cidade, igualmente amada e fugidia. É a cidade de ‘As vitrines’, em cujos vãos a musa se perde (“Os letreiros a te colorir / Embaraçam a minha visão / Eu te vi suspirar de aflição / E sair da sessão / Frouxa de rir”); que puxa a cidade de hoje, violenta, decadente mas belíssima de ‘Subúrbio’; que cai na cidade eterna, concreta e imutável como a pedra de ‘Morro Dois Irmãos’; que chama a cidade do futuro, dos ‘Futuros amantes’, onde o amor volta se consumar.
 
E da cidade, o imaginário poético de Chico volta-se para o país, a contradição entre o nosso passado idealizado e nosso presente concreto e difícil tão bem descrito em ‘Bye bye Brasil’. A que se segue o ‘Cantando no toró’, tão boa definição de Chico do artista brasileiro, aquele que continua a cantar e dançar de sapato branco mesmo na lama.
 
O roteiro de Chico passeia também pelo amor e pela cidade idealizados de ‘Renata Maria’, de ‘Outros sonhos’, de ‘Imagina’, de ‘Porque era ela, porque era eu’, de ‘Sempre’. Passa pela beleza intensa da arte quando pura diversão (‘O futebol’) e da mulher quando puro prazer (‘Morena de Angola’). Traz o compositor amargo de ‘Ode aos ratos’ e o compositor lírico e irônico de ‘Grande hotel’ (naquele genial dueto com o baterista e parceiro no samba, Wilson das Neves). E no meio de tanta música nova e complexa, Chico ainda brinda o público deixando-o cantar com ele no bis um daqueles velhos sucessos, ‘Quem te viu, quem te vê’, que o transformou em mito ainda muito jovem.
 
Primeiro show de Chico em DVD, trata-se de um espetáculo que, como se vê, sem ser retrospectivo reconta de forma exemplar sua trajetória. Que pode ser resumida no número inicial, aquele que começa com ‘Voltei a cantar’, segue com o manifesto artístico ‘Mambembe’ e culmina com ‘Dura na queda’, outra indisfarçável (auto)definição de um artista que cantou e continua cantando tanto o sofrimento quanto o prazer de seus contemporâneos: “Já apanhou à beça / Mas para quem sabe olhar / A flor também é / Ferida aberta”. Depois disso, é o que se sabe: os homens aplaudem, as mulheres gritam “lindo”, como em qualquer show. O diferente é que, depois dessa experiência, os brasileiros se vêem e se entendem um pouco melhor no palco. E agora em CD e DVD.